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Harpas de Meus Nervos


Surgimento de uma melodia

 

 Tocam-se as notas, ergue a harpa, grita-me Vida! Anuncie minha chegada ao quarto escuro. Não estou com lembranças boas para escrever, nem más feridas. Sou alguém que retorna para o mesmo lado de onde vim. Venho de uma lenda, viro estrela humana conforme as horas. Meu brilho é sangue, é denso, líquido, escarlate, escorre por dentro. 

Dentro de um dia, com o pó de meus ossos, serão feitas cinzas de anjos que morreram de raiva. E renasceram dentro de uma alegria infernal, que dói e fere, provoca amor e ódio, brinca de viver com o que se prova de azedo ou não de um e outro sentimento que vou escolher para anunciar a vida.   

Uma canção acende o sono, acordo de uma irrealidade, sou sinal de coisa viva e secreta, sou luz, sou gaveta fechada que cobre um livro inteiro de vida, corpo silvestre enchendo o chão.

Não queiram saber o ritmo, a música vem de onde não esperamos. Não tenho mais escolha, as janelas abriram, a porta está desfeita, é hora de voltar a escrever para o futuro, e que meus pedidos sejam atendidos.  

É hora de eu acordar,

Boa Noite a todos!

(João Ximenes)



Escrito por Scarabh às 20h06
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                   Mudanças

"Sinto o cheiro da madeira forte da porta. Tenho falta do meu antigo quarto. Este lugar onde estou chegando é novo e resultado de uma mudança forçada. As paredes têm o cheiro da tinta fresca, branca e azeda. Elas guardam poucos retratos meus que larguei numa caixa de papelão antes usado para empacotar alimentos. Estou cansado de levar os mesmos livros que leio nas viagens programadas com a urgência de me ver livre de uma situação que me ameaçava de rir enquanto enquanto eu limpava os vidros de uma sala que deixei. A ânsia de me transpor para outro lugar é fraca. O lado avesso de uma transformação me dá raiva. Meus olhos permanecem frios e baixos, sem força de olhar o que realmente mudou na minha vida. É que tenho agora outro espaço para viver, e o que mais? Além do que sei, mais nada! Quero buscar um colchão para dormir que o dia de hoje atravessou meus sonhos de permanecer onde estava, e me deixou com sono. Estou cansado só por saber que tenho hora para chegar em uma casa que não desejo ficar... Mas vou morando aos poucos, como se eu estivesse ainda por lá! Que vou fazer mais? Dormir..."

(João Ximenes Neto)   



Escrito por Scarabh às 21h03
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Louco amante dos vivos

 Se eu der importância a razão, logo virei a tornar-me uma grão de vida presa soterrada pelo inferno. A loucura me é mais obsessiva, ela não me permite obedecer de cabeça baixa e pedir em pose de rezas para eu viver dolorosamente agradecido por ser humilhado pelo conhecimento alheio. Estou farto de que provar que aquilo que não sei é o que não me pertence, quero então meu auto-conhecimento. Pois estou puramente passivo, esmagado pela extrema ação da vida que me passa e eu sem nada poder fazer por mim, saí de minha sombra e resolvi um pouco experimentar a clara sensação dos fatos. E até então não tenho pensado, pensar me foi um fardo, enlouqueci, e larguei meus sorrisos bobos e largos sem jamais saber do que precisei para explicar as dores. E para que um nome? Sou-me inconsciente, não devo me nomear. Minha miséria de lucidez é uma riqueza para naturalmente lidar com os fatos.

Estou enlouquecendo, meu espírito está me agracendo.

Obrigado!

 

( João X. N.)



Escrito por Scarabh às 18h59
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Denguinho,
Eu te amo tanto e como se fosse uma necessidade fisiológica do meu espírito te amar assim: Com gana, garra, força, com pressão... De um jeito que só nós dois entendemos e sentimos. Porque somos únicos, unos! Somos exclusivos... Somos um anexo do outro... Uma continuação rara e profunda... Porque eu começo em mim, você começa em você, mas ambos terminamos um no outro!

Luz na minha Vida, apesar de por muito tempo ter se visto apenas como sombras, João é um Sol, é uma chuva de cometa, uma constelação inteira... João tem esse sorriso bobo e largo, a risada alta, a pele macia, o cheiro suave, o gosto forte...

João tem abraço apertado, colo quentinho, ombro disponível, chocolate na bolsa, as palavras certas em todos os momentos, paciência de Jó! Porque eu sou uma temperamental inconstante, que explode, implode, refaz, reconstrói, destrói, ataca, defende. Sou uma incógnita que nem eu mesma entendo. Mas ele está sempre por perto, sem medo ou culpa!

Amo-te imensa, intensa e eternamente!
Bj
Nanny

Escrito por Scarabh às 08h52
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Por não estarem distraídos

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se
sente a garganta um pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca
entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que estava à frente, e ter esta
sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e riam para dar matéria
peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de
carros e pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque - a sede é a graça,
mas as águas são uma beleza de escuras - e ao toque brilhava o brilho da
água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos! Até que tudo se transformou em não. Tudo
se transformou em não quando eles quiseram essa mesma alegria deles. Então a
grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele
procurava e não via, ela não via que ele não vira, ela que, estava ali, no
entanto.
No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas,
e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só
porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos.
Só porque, de súbito exigentes e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo
porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é
preciso sair de casa para que a carta chegue, e quando o telefone
finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.

Clarice Lispector



Escrito por Scarabh às 17h24
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"Que Não Me Entendam, Pouco Se Me Dá. Nada Tenho A Perder."

História de coisa  

O telefone pertence ao mundo das coisas. É um objecto vivo - faço questão de que seja "objecto" e não "objeto". O "c" é o osso duro do telefone. Ele é um ser doido. É valsa de Mefistófeles. A autópsia do telefone dá pedaços de coisas. Às vezes, quando disco um número, toca, toca, toca sem parar e ninguém atende: comunico-me pálida com o silêncio de uma casa oca. Até que não agüento a tensão e, nervosa, de súbito desligo, nós dois com taquicardia. O telefone é insolúvel. O telefone é sempre emergente. As palavras não são coisas, são espírito. O telefone não fala objectos, fala espírito. Mas eu duvido da minha própria dúvida - e não sei mais o que é coisa e o que é eu diante da coisa. Ou se trata da tirania das palavras? Tomo cuidado para não pensar demais. Faz mal às palavras. Mas o telefone obedece a uma lei inalterável e a um princípio eterno e dinâmico. Eu me ajusto à minha incerteza certa da certeza do telefone. Apesar de tantas conversas e palavras - o telefone é solitário. E mantém segredo. Indiscrição? Solitude. O telefone é uma estrela. Ele se estrela todo estridente em gritos ao soar de repente em casa. Atendo, digo "Alô" - e ninguém fala. Fico ouvindo a respiração de quem me ama e não tem coragem de falar comigo. E quando o telefone nunca toca? A grande solidão: eu olho para ele e ele olha para mim. Ambos em estado de alerta. Até que não agüento mais e disco o número de um amigo. Para quebrar o silêncio grande. E quando eu me comunico com o sinal de comunicação? É um enigma: eu me comunico com um "não". Quando disco e dá sinal de ocupado, estou me comunicando com o sinal de comunicação. Com o próprio enigma, pois estou me comunicando com "não, não, não, não, não, não". E espero angustiada que o "não, não, não" se transforme em "sim, sim, sim". O sinal abençoado da chamada positiva de repente é: alô? de onde fala? Eu queria saber se existe o número 777-7777. Se existe comunico-me com o além. O telefone é como a girafa: nunca se deita. E, apesar de ser usual, é como a girafa: inusitado. Sinto o telefone me esperar quando ele não estabelece logo uma ligação. Ouço uma respiração contida, contia, contida. O telefone é um ser infeliz. Ele pode se desesperar e de repente transmitir uma notícia ruim que pega a gente desprevinida. Mas quando pode, dá notícia alegre. Eu então rio baixinho. Não adianta me explicarem como funciona o telefone. Como é que eu disco um número em casa e outra casa responde? Raio laser? Não. Astronauta, sim. Como é que na Idade Média e na Renascença as pessoas se comunicavam? Na Suíça a gente pede à telefonista para nos acordar a tal e tal hora. E também tem um serviço ótimo: a gente pergunta uma pergunta que só uma boa enciclopédia responderia. A telefonista pede para aguardar um prazo e depois telefona informando. No Brasil demora meses ou até anos para a gente conseguir obter um telefone. Em New York um brasileiro pediu à telefonista para adquirir um telefone com muita urgência. Ela disse que não podia dar com urgência. O brasileiro desanimado perguntou quando conseguiria. Para seu pasmo, ela disse: só aqui a três dias. Não digo o número de meu telefone porque é de grande segredo.

Meu telefone é vermelho.

Eu sou vermelha.

Tenho que interromper porque o telefone está tocando.

 

Clarice Lispector



Escrito por Scarabh às 10h52
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"Lá se foram os dias em que as horas tão passadas se deram lentas e vagas como cortinas brancas flutuando em casas cinzentas. Foi-se também meu grito curto e ameaçado de chamar a atenção de alguém quando eu vi uma mulher de cantando, coberta de suas roupas simples como vestes roídas por ratos, e o formato de sua fisionomia contendo uma beleza pobre não foi capaz de compensar sua voz gritante e humilhada! Que fortes palavras a têm! Insisto eu enquanto tento emitir um comentário sobre a minha inquieta dúvida, ansiosa e até barulhenta pergunta de eu ter o ciúme de somente eu querer a voz que não me pertence. Estou tentando caber no que não chamo de realidade, mas é que a dimensão exata do diâmetro do silêncio onde muito me escondia já não tem a abertura suficiente de eu escapar do mundo. E de onde virão meus próximos medos? Não sei bem como o descrever o que me virá nas horas poucas que restam como as sobras da última ceia ainda não bem devorada por bocas secas e sem vontade de fome. Mas sei, de meu imediato instante, que não quero ficar por aqui tentando lembrar novamente do meu antigo retrato pendurado na parede amarelada da sala".

( J.X.N - Dedico meu hoje meu mais forte apego àqueles que chegaram perto do meu escuro, sem mesmo entenderam minhas palavras. Obrigado por tudo!)



Escrito por Scarabh às 14h18
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 (Virgínia Woolf)

 "Agora, perto de uma estranha luz que me deixa ir para onde não quero faltam-me as palavras. Minha boca está seca por que engoli o pó de meu deserto e porque meu deserto era meu corpo preso dentro de um quarto. E para sair preciso entrar. Preciso então me admitir a andar com olhos fechados até que meu desequilíbrio caia e meu corpo se renda espalhado pelo chão, assim como os cabelos grandes, cheios e fartos estejam submersos sobre a água de um rio que ainda não bebi. Então a luz se apaga e faço um sopro no vão para saber se o ar que estou tentando empurrar com os lábios ainda tem força de arrastar poeira para os cantos da face. Estou por aqui, tentando me escolher e seguramente confiante que o desconhecido me vem trazer novas ameaças de vida. E a vida ameaçadora é tão simples que posso chegar ao meu máximo com um pedaço dela. E dela bebi, e meu gole era forte, e tão forte que digo que adoro: Adoro um jeito meu de nunca deixar de sorrir. Adoro um jeito meu de nunca deixar de sorrir para alguém".   

 (J. X. N. - Pois que dedico esta a frase as pessoas que amo e em especial a escritora Virgínia Woolf)



Escrito por Scarabh às 16h49
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Elaine

Para Elaine Nascimento

 

 

         Falar de Elaine é ter poesia na pele.

            É mulher de inúmeras vidas

E é tão difícil abrigar tantas vidas

Num corpo só.

 

Seus cabelos vermelhos

Possuem a mistura ardente

Do fogo, do sangue, do vinho.

 

O que mais dizer?

Ela tem uma força incrível

De arrancar a solidão de todos os homens.

 

E me sobram tantos sonetos guardados

Entre as primeiras páginas dos meus livros.

Frases difíceis de decifrar

O quanto ela é importante para mim.

 

Sei que te vi crescer

Com tantas contradições

E escapar de inúmeras armadilhas.

 

E a você dedico estes versos

Para te agradecer e por concordar

Com a parte viva do que sou hoje.

 

 

(João Ximenes Neto)



Escrito por Scarabh às 12h46
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A Carta

 

    A carta é uma mensagem escrita com as nossas próprias mãos. É um ser comum que torna inesquecível qualquer momento de nossas vidas, seja ele melhor, pior ou até mesmo, indecifrável. É só observar um envelope de carta velho com um papel dobrado que meu coração dispara desesperadamente. E a grande dúvida que me vem à mente é se essa carta foi escrita para mim ou não. Se foi, eu aperto meu coração, abraço minha alma e abro um singelo sorriso. Se não, eu retorno ao meu universo que se torna limitado pela monotonia. E as cartas quebram a monotonia, me dão esperança.       

    As palavras escritas com o suor que escorre pelos nossos dedos têm um poder extraordinário em meu espírito. Cada letra, cada linha, cada sinal de pontuação presente em uma carta torna minha alma mais profunda e traz meu ser de volta à vida.

    Mas, eu ainda nem sei o que está exatamente escrito na carta. Tristeza? Alegrias? Problemas? Súplicas? Notícias urgentes? Segredos? O que for, contato que seja de alguém que queria se comunicar comigo. E eu sou difícil de me comunicar com alguém que está à minha frente. Sendo assim, escrevo uma carta, ou melhor, transmito o que eu quero, o que sinto, consigo provar que eu existo, mesmo sem falar diretamente com tal pessoa. E esta pessoa acaba me enviando páginas e mais páginas de carta para o meu ser, que continua incansavelmente a lutar sozinho em busca de uma palavra que lhe saia da boca. E ao ler e reler as cartas que recebo, descubro que há pessoas que compreendem o que está escrito em meu pensamento.

Enquanto houver correio, eu teimo, reclamo, grito, sorrio e escrevo.

Mas o meu endereço, digo a ninguém.

Meu endereço é secreto.

Eu sou discreto.

Como licença! Acho que chegou carta para mim.

                           (João Ximenes Neto)

 

Conclusão de tudo o que escrevo e penso é:

    “Pra mim é muito difícil completar e produzir o meu próprio eu”



Escrito por Scarabh às 11h43
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O homem e o Animal

 

 

            O homem vive. O animal sobrevive. O homem estuda. O animal aprende. O homem sabe de si e as coisas. O animal não entende, não se compreende, mas percebe que têm e o que não tem. O homem tem sentimentos e é bom. O animal sente é e selvagem. O homem come por conveniência. Mas há muitos homens que comem quando estão com vontade. E todo animal come por necessidade.

O homem tem vaidade em ser homem. O animal tem liberdade para ser animal. O homem que se torna livre é animal. O animal que é preso e enjaulado é obrigado a ser homem. O homem pensa que é bicho solto, mas isso não é a verdade. O homem não é vivo, não é um animal. A realidade de um animal é ser livre sem ser observado. O homem sente prazer em ser observado o tempo todo. O homem que mata e faz gemidos se define como animal. O animal não se vê como um homem. Pois não sabe o animal que ele é. O homem sente a dor. O animal suporta a ferida. O homem quando sente o peso real da sua dor, a primeira coisa que ele deseja é livrar-se dela. O animal carrega a si mesmo durante a vida inteira.

O homem é um animal em forma de desejo. O homem que pensa não age como animal. O animal que nunca pensa age como deve ser feito. O homem brinca de ser animal. O animal brinca como lhe diz a sua natureza própria, mas não sabe de si. Homem e animal têm o mesmo destino: nascer, crescer, viver, reproduzir, envelhecer e morrer.

O homem pode servir como animal. O animal pode ser fiel ao homem. O animal pode ser servido ao homem. O homem pode domesticar um animal. O homem comanda o animal. O animal pode amedrontar o homem. O animal domina o homem. O animal devora o homem. Um animal se alimenta de outro animal. Um homem pode se alimentar de outro homem também. O homem sente orgasmo. O animal fica no cio. O animal cruza. O homem faz sexo. O homem só começou a fazer sexo para imitar o animal. Não há diferença. Só existem palavras de mesmo sentido que dizem as mesmas coisas sobre cada um deles, mas de um jeito diferente.   

           O homem é diferente do animal. O homem se iguala ao animal. O homem se compara a outro homem para descobrir quem é o rei animal. O animal é contra outro animal para sentir quem é que manda. E quando o homem e o animal querem dominar o seu terreno, eles agem como feras. Lutam para destruir um ao outro até que o último ser de cada espécie sobreviva. Este último homem ou animal que resta é o dominante. E depois da luta nascem mais dois, três, ao todo uns cem. Centenas, milhares, milhões, bilhões... E tudo recomeça no ciclo da vida humana e na esfera animal. Homem ou animal. Animal e homem. Homem que não é animal. E animal que é animal, mas nunca será homem.

 

(João Ximenes Neto)



Escrito por Scarabh às 02h58
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Eu à sos

 

Puxa! Fiquei só!

É estranho estar só.

É estranho existir só.

Mesmo sem saber da crueza que é ficar só sem saber que você existe com alguém,

Mas mesmo assim está só.

E quando se está do outro lado da linha a espera de um sinal enigmático de comunicação, espera-se uma eternidade de mensagens duvidosas contendo erros e falhas de que ninguém virá ao seu encontro virtual.

E quando finalmente as mensagens de erros e falhas são eliminadas, a conexão trágica lhe anuncia que não existe mais ninguém a responder suas chamadas de súplicas insuspeitas de serem rejeitadas.

Eu estava tentando não ficar só!

Eu não me suportava mais comigo mesmo.

Eu queria saber se existia outra pessoa do lado oposto do sistema da vida!

Mas não tinha...

E não fui capaz de chamá-la.

Nem sequer fui paciente o bastante para ouvi-la.

E sozinho fiquei.

E acho que foi muito merecido!

                 

 

 

(João Ximenes Neto)



Escrito por Scarabh às 10h05
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Papel

 

            Acá estou no meu estado morto e mais admirável de ser despejado, tentando escrever palavras soltas e cansadas no espaço em branco do pensamento escuro. Já rabisquei todos os meus segundos de vida, dobrei cada mentira que eu mantive segura sem cortar em duas folhas de tempo todo o meu passado, e acabei amassando todas as minhas esperanças de descascar a porta velha do meu quarto trancado.

            E em uma perda de mecanismo respiratório eu quase engoli a camada fina de celulose pálida porque meu sufoco já estava negociando com a minha própria sorte. Rasguei as desigualdades, pois sempre acreditei que jamais devia haver diferenças.

Mas durante todo esse esforço pelo qual eu passei, ainda desejei cometer uma ação irracional que fosse capaz de manchar com tinta vermelha e escura de sangue toda a superfície clara de qualquer ressentimento.

Com um último bocejo, eu picotei qualquer lei mortal que tentasse me impedir de realizar minhas diretrizes existenciais, que eram o “ser” e o “estar” sentindo as veias frágeis da fome se desintegrarem na saliva já seca e suplicando quaisquer quilos de alimento não-perecíveis ao céu, onde eu fosse capaz de me nutrir de ar pesado e urbano – elemento vital e popular em estado de degradação. Escrevi o nome de tua ex-companheira ao vento e recortei cada forma retangular para desenhar tudo o que me fizesse esquecer de que alguém existiu, mas recebi um delírio seco como resposta.

E ao desdobrar em quatro mil partes a esfera da natureza humana, eu marquei com reticências úmidas e geladas o ponto final de uma história, talvez sem muito passado a dizer, sem um presente momentâneo para se felicitar, ou até mesmo, sem futuro vesgo para se planejar.        

                         

(João Ximenes Neto)

Escrito por Scarabh às 23h32
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A distância do futuro

 

 

 

O futuro tem dimensões fantasmagóricas

De extravasar sentimentos

De me fazer esquecer as forças que há tempos me deixaram

E lançaram meu corpo num conjunto infinito

Como se eu fosse mais um número irracional.

E o futuro não deseja me ver tão cedo.

Então quem sabe ele chegue de tarde

e venha me fazer uma visita?

Por isso...

Corra futuro!

Corra que eu tenho pressa

De ver meus filhos chorando

Quando estiverem nascendo.

Tenho angústia de viver embaixo

De alguma pessoa.

Pois preciso confiar

Mesmo que não tenha o porquê

Como se minha dúvida triste

Fosse a única das minhas verdades.

 

                                    João Ximenes

 



Escrito por Scarabh às 09h28
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“Escrever é ativo. Ler é passivo. Então eu deixei de sofrer agora que escrevo? Não, não. Porque faço sempre uma releitura de tudo que deixei escrito no papel. Então sou mais passivo. Sou a matéria de carne que apanha dos fatores externos. Ando eu apanhando por demais. Vou parar de ler então. E continuar a escrever. Escrever é uma ação. Ler é uma reação. A escrita nasceu primeiro e depois começaram a decifra-la. É isso mesmo ou eu não sei exatamente como ler o mundo?”.

 

        (João Ximenes)



Escrito por Scarabh às 09h25
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