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BRASIL, Sudeste, RIO DE JANEIRO, Homem, de 20 a 25 anos, Arte e cultura, Livros


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Harpas de Meus Nervos


"Que Não Me Entendam, Pouco Se Me Dá. Nada Tenho A Perder."

História de coisa  

O telefone pertence ao mundo das coisas. É um objecto vivo - faço questão de que seja "objecto" e não "objeto". O "c" é o osso duro do telefone. Ele é um ser doido. É valsa de Mefistófeles. A autópsia do telefone dá pedaços de coisas. Às vezes, quando disco um número, toca, toca, toca sem parar e ninguém atende: comunico-me pálida com o silêncio de uma casa oca. Até que não agüento a tensão e, nervosa, de súbito desligo, nós dois com taquicardia. O telefone é insolúvel. O telefone é sempre emergente. As palavras não são coisas, são espírito. O telefone não fala objectos, fala espírito. Mas eu duvido da minha própria dúvida - e não sei mais o que é coisa e o que é eu diante da coisa. Ou se trata da tirania das palavras? Tomo cuidado para não pensar demais. Faz mal às palavras. Mas o telefone obedece a uma lei inalterável e a um princípio eterno e dinâmico. Eu me ajusto à minha incerteza certa da certeza do telefone. Apesar de tantas conversas e palavras - o telefone é solitário. E mantém segredo. Indiscrição? Solitude. O telefone é uma estrela. Ele se estrela todo estridente em gritos ao soar de repente em casa. Atendo, digo "Alô" - e ninguém fala. Fico ouvindo a respiração de quem me ama e não tem coragem de falar comigo. E quando o telefone nunca toca? A grande solidão: eu olho para ele e ele olha para mim. Ambos em estado de alerta. Até que não agüento mais e disco o número de um amigo. Para quebrar o silêncio grande. E quando eu me comunico com o sinal de comunicação? É um enigma: eu me comunico com um "não". Quando disco e dá sinal de ocupado, estou me comunicando com o sinal de comunicação. Com o próprio enigma, pois estou me comunicando com "não, não, não, não, não, não". E espero angustiada que o "não, não, não" se transforme em "sim, sim, sim". O sinal abençoado da chamada positiva de repente é: alô? de onde fala? Eu queria saber se existe o número 777-7777. Se existe comunico-me com o além. O telefone é como a girafa: nunca se deita. E, apesar de ser usual, é como a girafa: inusitado. Sinto o telefone me esperar quando ele não estabelece logo uma ligação. Ouço uma respiração contida, contia, contida. O telefone é um ser infeliz. Ele pode se desesperar e de repente transmitir uma notícia ruim que pega a gente desprevinida. Mas quando pode, dá notícia alegre. Eu então rio baixinho. Não adianta me explicarem como funciona o telefone. Como é que eu disco um número em casa e outra casa responde? Raio laser? Não. Astronauta, sim. Como é que na Idade Média e na Renascença as pessoas se comunicavam? Na Suíça a gente pede à telefonista para nos acordar a tal e tal hora. E também tem um serviço ótimo: a gente pergunta uma pergunta que só uma boa enciclopédia responderia. A telefonista pede para aguardar um prazo e depois telefona informando. No Brasil demora meses ou até anos para a gente conseguir obter um telefone. Em New York um brasileiro pediu à telefonista para adquirir um telefone com muita urgência. Ela disse que não podia dar com urgência. O brasileiro desanimado perguntou quando conseguiria. Para seu pasmo, ela disse: só aqui a três dias. Não digo o número de meu telefone porque é de grande segredo.

Meu telefone é vermelho.

Eu sou vermelha.

Tenho que interromper porque o telefone está tocando.

 

Clarice Lispector



Escrito por Scarabh às 10h52
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"Lá se foram os dias em que as horas tão passadas se deram lentas e vagas como cortinas brancas flutuando em casas cinzentas. Foi-se também meu grito curto e ameaçado de chamar a atenção de alguém quando eu vi uma mulher de cantando, coberta de suas roupas simples como vestes roídas por ratos, e o formato de sua fisionomia contendo uma beleza pobre não foi capaz de compensar sua voz gritante e humilhada! Que fortes palavras a têm! Insisto eu enquanto tento emitir um comentário sobre a minha inquieta dúvida, ansiosa e até barulhenta pergunta de eu ter o ciúme de somente eu querer a voz que não me pertence. Estou tentando caber no que não chamo de realidade, mas é que a dimensão exata do diâmetro do silêncio onde muito me escondia já não tem a abertura suficiente de eu escapar do mundo. E de onde virão meus próximos medos? Não sei bem como o descrever o que me virá nas horas poucas que restam como as sobras da última ceia ainda não bem devorada por bocas secas e sem vontade de fome. Mas sei, de meu imediato instante, que não quero ficar por aqui tentando lembrar novamente do meu antigo retrato pendurado na parede amarelada da sala".

( J.X.N - Dedico meu hoje meu mais forte apego àqueles que chegaram perto do meu escuro, sem mesmo entenderam minhas palavras. Obrigado por tudo!)



Escrito por Scarabh às 14h18
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